
As Cores de Alemete
Uma mãe que fugiu de um culto. Um filho marcado por uma profecia. Uma Instituição que decide o que se pode lembrar.
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Numa cidade onde a Instituição da Fé decide o que se pode vestir, dizer e lembrar, uma criança nasce com o cabelo a brilhar.
Betel sabe o que aquilo significa. Há anos que deixou a Umbra, a sociedade secreta que vive nos esgotos de Carmelo, e há anos que esconde de toda a gente o que leu num pergaminho proibido: uma profecia sobre um rapaz com sinais inconfundíveis. Agora a cidade inteira viu o brilho do filho dela. E toda a gente o quer: a Instituição, o Conselho da Umbra e o Defectio, o nicho que a própria Umbra expulsou e que reza a um deus de fogo.
Para o proteger, Betel vai ter de voltar ao submundo que jurou esquecer.
Entre rituais, códigos e uma fé que vigia tudo, As Cores de Alemete é uma fantasia sombria sobre o preço de proteger alguém, sobre quem escreve as profecias e sobre aquilo em que se aceita acreditar para sobreviver.
O brilho vermelho
— Não deixe que se veja o vermelho — segredei ao bispo.
Ele anuiu, um gesto quase impercetível, e com a ponta do lençol de linho branco, cobriu a cabeça do meu filho. Os passos dele ecoaram pela nave da catedral e quase abafaram o burburinho que vinha da Praça da Beatitude.
A Catedral de Carmelo era enorme mas estava praticamente vazia. Os bancos de madeira polida, longos, estendiam-se desde as portas maciças de ouro até ao altar. Nas paredes laterais, em nichos dourados, estavam expostos os santos mais belos e sofredores, adornados com joias e tecidos caros.
Atrás do altar, a abside era um vitral colossal com o Profeta ensanguentado, de joelhos…